quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Varroose: Como combater esta enfermidade?

Agora que expliquei o que é a varroose e como se detecta decidi pegar numa excelente brochura produzida pela Universidade de Évora acerca do combate à varroose. Podem encontrá-la no seguinte link: Conviver com a varroa em Portugal.

Ainda assim para quem não quiser fazer o download deste documento vou deixar aqui algumas das informações nele contidas e que são de extrema utilidade.

Nota inicial: para melhor verem as figuras devem clicar nelas de forma a ampliar o seu tamanho. De referir que todas as citações e figuras foram retiradas do documento cujo link deixei no início do post.

Assim para combater a varroose podemos recorrer a métodos biotecnológicos, produtos químicos e ainda a uma mistura das duas anteriores opções chamada de protecção integrada.

(na figura: quadro com vantagens e desvantagens dos métodos biotecnológicos e dos tratamentos químicos homologados e não homologados)

Começo por deixar aqui um quadro com alguns métodos biotecnológicos que são eficazes na luta contra a varroose. Segundo esta brochura os métodos biotecnológicos "São particularmente indicados para apicultores de pequena dimensão que queiram deixar de utilizar (ou reduzir a utilização de) tratamentos químicos nas suas colónias. Os métodos que geralmente garantem maior sucesso, são os que consistem em ‘apanhar’ as varroas dentro da criação. Esta, depois de operculada, será retirada da colónia antes do ‘nascimento’ das abelhas, que conduzirá à saída das varroas."

(na figura: quadro com 2 métodos biotecnológicos explicando em que consistem e quais as suas vantagens e desvantagens)

Quanto aos tratamentos químicos existem vários tipos de acaricidas disponíveis no mercado. Fica aqui mais um quadro retirado da brochura contendo todos os acaricidas homologados actualmente. No entanto é de referir que por vezes surgem tratamentos químicos eficazes no tratamento da varroose mas que não estão homologados... isto é, são "substâncias utilizadas em colónias de abelhas sem que as consequências do seu uso tenham previamente sido (suficientemente) testadas."

Antes de apresentar os referidos tratamentos químicos convém fazer mais uma chamada de atenção: "Os princípios activos dos produtos comerciais usados na luta contra a varroa foram inicialmente desenvolvidos para combater pragas das culturas ou do gado. Quando comercializados como varroacidas, esses produtos estão especificamente formulados para uma utilização segura e eficaz em apicultura. As ‘mezinhas’ e outras ‘receitas caseiras’ feitas com os mesmos ‘ingredientes’ (muito frequentemente disponíveis como pesticidas para uso agrícola) devem ser rejeitadas, dado que podem inclusivamente ser muito prejudiciais às próprias abelhas. Por exemplo, sabe-se hoje que a utilização indevida destas práticas está directamente relacionada com as resistências que as varroas têm vindo a desenvolver aos produtos homologados, na maioria dos países europeus, incluindo Portugal. Podem também acarretar graves prejuízos à saúde dos consumidores de produtos das colónias, independentemente do impacto negativo incalculável que poderão vir a acarretar ao comércio de produtos apícolas, a nível nacional e/ou internacional."

(na figura: quadro com os tratamentos comercializados em Portugal e na UE)

São ainda mencionados no quadro anterior alguns tratamentos que são considerados alternativos por serem ácidos orgânicos ou óleos essenciais. São exemplos: ácido fórmico, ácido oxálico, timol, eucaliptol, etc... que podem ser utilizados na Apicultura Biológica porque o próprio mel já possui na sua constituição alguns destes ácidos ou óleos essenciais, sendo no entanto regulado os limites toleráveis destas substâncias no mel. Temos como exemplo gritante o timol porque em zonas que floresça muito tomilho (planta de onde se extrai o timol) o mel das colónias vai possuir quantidades mais elevadas desse óleo essencial na sua constituição.

Quanto à aplicação dos tratamentos: "O apicultor deve sempre seguir as indicações constantes no rótulo/embalagem dos medicamentos/substâncias que utilizar. Frequentemente, é no fim do Inverno e/ou após a cresta (Verão/Outono) que se aplicam a maior parte dos tratamentos. Contudo, nalgumas zonas do país os tratamentos poderão ser efectuados noutra altura do ano (por exemplo, em Julho). Quando aplicados no fim do Verão/início do Outono, os períodos concretos de tratamento das colónias contra a varroa dependem mais do tipo de princípio activo escolhido pelo apicultor. Por exemplo, os tratamentos com princípios activos cuja eficácia terapêutica depende da taxa de evaporação (por exemplo, de temperaturas mais elevadas para serem mais eficazes) devem ser aplicados mais cedo. Por outro lado, princípios activos que requerem ausência de (ou muito pouca) criação deverão ser aplicados mais para o fim do ano (Novembro /Dezembro, dependendo da região). Nalgumas regiões do país, poderão a generalidade das rainhas suspender temporariamente a postura durante o Verão, pelo que se pode considerar a hipótese de realizar, nesta altura, os tratamentos que requeiram ausência de criação (e desde que não entrem em conflito com a época de cresta). Sempre que o grau de infestação o justificar, dever-se-ão realizar tratamentos de emergência. Nas colónias muito infestadas com varroa, estes tratamentos devem ser aplicados numa altura em que ainda seja possível proteger um número suficiente de ciclos de criação, que, por sua vez, possam recuperar a colónia. Acresce que estes tratamentos de emergência poderão implicar que o mel dessas colónias não seja passível de vir a ser consumido pelo Homem, sobretudo se os tratamentos coincidirem com os períodos de produção intensa de néctar/melada."





E para quem não sabe o que são estes símbolos apenas digo que quando surgem nas embalagens de tratamentos químicos sgnificam que são tóxicos e/ou corrosivos e/ou nocivos para a saúde. Alguns dos tratamentos químicos anteriormente referidos tem estas propriedades pelo que se devem ter algumas precauções na sua manipulação e utilização de forma a evitar problemas para nós (porque os aplicamos) e para os outros (porque são potenciais consumidores dos produtos das nossas colónias sendo o produto mais expressivo o mel).

Assim para evitar-mos problemas na manipulação dos varroacidas devemos sempre usar luvas descartáveis no caso dos produtos de contacto, e no caso dos produtos que evaporam devemos ainda usar máscaras de protecção das vias aéreas. No caso dos ácidos orgânicos deve-se ainda usar luvas que confiram protecção contra eventuais derrames, o que sem protecção adequada pode significar queimaduras extensas e profundas....

Agora para evitar-mos que os produtos das colónias fiquem contaminados com os produtos químicos que utilizamos existe uma série de recomendações que podem ser seguidas. São elas:

-Respeitar sempre as instruções contidas nas embalagens;
-Nunca fazer tratamentos imediatamente antes e/ou durante os principais fluxos de néctar, ou quando as alças estiverem colocadas, a não ser que seja permitido nas indicações das embalagens (mas pelo sim e pelo não e porque a teoria da conspiração existe... mais vale ignorar esta indicação da embalagem quando surgir...);
-Apenas usar varroacidas quando for expressamente necessário, contribuindo a pesquisa activa de varroas para a decisão de tratar ou não tratar as colónias;
-Utilizar sempre medidas de comprovada eficácia e não usar as receitas caseiras de eficácia desconhecida...

Agora surge uma variante dos tratamentos que pode causar imensas dores de cabeça... as resistências aos medicamentos usados! Já existe em Portugal casos de elevada resistência aos produtos químicos mais usados como o fluvalinato (vulgo apistan).

(na figura: esquema de como surgem as resistências aos varroacidas)

Assim para impedir que surjam resistências recomendam-se algumas medidas:

1) "efectuar tratamentos apenas quando forem absolutamente necessários, face ao número de varroas presentes nas colónias";

2) "aplicar sempre as doses máximas de varroacida recomendadas pelas entidades responsáveis pela comercialização de produtos homologados para uso apícola";

3) "no final do período de tratamento, retirar sempre das colónias as tiras de varroacida usadas";

4) "não reutilizar tiras já usadas em tratamentos anteriores, pois elas serão ineficazes na luta contra a varroa, e poderão conduzir à morte as colónias com elas tratadas. Acresce que essa reutilização contraproducente só contribuíra para seleccionar varroas cada vez mais resistentes aos varroacidas usados";

5) "alternar tratamentos com substâncias activas de classes diferentes (por exemplo, usando rotativamente Apistan / Apivar / Apiguard)".

Por fim e porque os métodos biotecnológicos não são suficientes para travar a varroose por si só e porque não podemos praticar uma apicultura sustentável apenas com os tratamentos químicos é aqui que surge a protecção integrada que não é nada mais nada menos que a junção dos dois métodos anteriores. Esta trás os seguintes benefícios:

- "permite conciliar a apicultura com os ‘tempos actuais’, em que dominam ‘ventos de mudança’ para a redução do uso de pesticidas, nomeadamente por razões de segurança alimentar e saúde ambiental";

- "não é ‘controlo biológico’, mas permite a inclusão deste tipo de táctica no controlo da varroa. Não é um programa de ‘produção biológica/orgânica’, mas poderá facilitar a produção deste tipo de produtos. Não é ‘fundamentalista’ face ao uso de pesticidas (nomeadamente os sintéticos), mas visa reduzir a sua utilização na luta contra a varroa";

- "a utilização de um método biotecnológico pode atrasar o crescimento das populações de varroas ao ponto de contribuir para a redução da necessidade de utilização de varroacidas";

- "várias medidas de luta, de tipos diferentes e em diversas alturas do ano, dificultam o crescimento das populações de varroas a níveis tais que possam ser economicamente prejudiciais para o apicultor";

- "a utilização de dois ou mais varroacidas de famílias diferentes, torna menos provável o aparecimento de populações de varroas resistentes a cada um deles";

- "a estratégia de controlo e o tipo de método de luta a usar pode (e deve) ser ajustada ao contexto concreto de cada um dos apiários, de forma a atender às prováveis diferenças nos padrões específicos de evolução dos níveis de infestação".

Assim pode-se seguir o seguinte esquema de protecção integrada que é sugerido pelo pessoal da Universidade de Évora:


Com este apontamento final penso ter concluído a minha missão de explicar os tratamentos para a varroose com base num documento publicado pela Universidade de Évora de excelente qualidade e de acordo com a realidade portuguesa. Devo ainda reforçar que todos as citações e quadros foram retirados deste documento cuja bibliografia é: Murilhas, A; Casaca, J (2004). Conviver com a Varroa em Portugal. Um contributo para a adopção de boas práticas apícolas de convivência com a Varroa. Universidade de Évora / AGRO 354-2001. Évora (Portugal). 32 pp

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